Brother II

Agosto de 2017

Quando eu abri os olhos, tava lá o Padre, no canto do quarto, lavando as mãos com álcool gel. Eu estava no quartinho que o padre mantinha pras 'visitas', geralmente alguém de bom coração que precisava de um lugar pra dormir por uns dias.

Geralmente de bom coração. Eu sou a exceção que confirma a regra.


Tentei me mexer, mas a dor foi tão excruciante que me deixou ofegando.

- Bom dia, Menina. Você não pode se mexer ainda... Pedi pra ver se alguém te arranja um remédio pra dor. - Eu assenti, encostando a cabeça de novo no travesseiro. - Você precisa parar de fazer isso.

A ênfase estava no 'precisa'.

- Você disse isso ontem.

- Dois dias atrás.

- Tudo isso?

- Você precisa parar com essas coisas, Menina. Chega. Não se sacrifica assim.

Ele puxou um banco para o lado da cama, se sentou e inclinou o corpo na minha direção. A mão grande do Padre cobriu a minha testa, depois acariciou meu cabelo, repetidamente, em silêncio. Eu suspirei, impaciente.

- Parar como, que outro jeito tem?

- Você sempre pode enfrentar isso indiretamente. Ensinar as pessoas...

- Revolução só se faz com morte, Padre, com ódio, ferro, fogo e destruição.

- Sozinha?

- A gente nasce, vive e morre sozinho. Não tem ninguém na minha pele sem ser eu.

- Eu tenho pena de você, Menina, dessa sua maneira de pensar...

- Enfia a pena no cu. - Grunhi, com tanta raiva que senti cuspe voando da minha boca. O Padre continuou acariciando meu cabelo, eu virei o rosto pro lado. - Estragaram muito a minha cara?

- Nada que não sare. - Os dedos dele se mantinham deslizando pelo meu cabelo, massageando meu escalpo, enquanto ele falava. - Nunca vi ninguém que se apegasse tanto à vida. Pena que é por raiva. Eu achei que anteontem ia ser a última vez que eu te remendei.

Virei para olhar o Padre e encontrei os olhos negros dele fixos nos meus. Enquanto ele me observava, eu não senti nada além de uma paz sem fim. Ele se aproximou lentamente e eu fechei os olhos, minha boca entreaberta, arquejante.

Ele encostou a testa na minha, por um longo tempo, os olhos abertos. Depois, com um suspiro, me beijou a testa e se levantou, me olhando. Com um sorriso, ele me fez mais um carinho nos cabelos e se virou para continuar arrumando o quarto.

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